Terça-feira, Julho 07, 2009

Rosas, guerras e meninos.

a Samuel Neves

Agora é a vez
do menino falar o instante:
- enquanto a gente passa
no meio da tarde
pelas veias cinzas abertas,
tiros nos atingem.
Somos refugiados.
Bombas explodem, tanques invadem...
nossas vozes pouco ecoam.

Agora é a vez do menino falar -
vozes, ardentes vozes:
- querida,
não quero que me entenda
só queria dizer
que não me importo.
Eu quero ficar em casa
ou em algum bar colorido
de certeza, protegido
não importa se cercado
de flores funéreas
do sepulcro do meus amores.

Muros cercam nossa terra -
somos homens ilhados -
em nossos pescoços,
condominios e
arames farpados.

Ao menino que fala
resta a pedrada,
o som que vem dos mares,
dos campos e das pedreiras.
Trazendo noticias de dias e noites quentes...
e esse calor
se expandindo nos chãos
das fábricas e do jardim.

E no jardim:
rosas de todas as cores.
Uma fazendo-se notar.
Uma distante.
Uma esperança.
Uma Rosa separada.

Lee Flôres Pires

Quarta-feira, Maio 20, 2009

C'est la vie

Uma vida de partida
um coração partido
um espelho
um retrovisor
um adeus.

Uma morte por mês
o último olhar mais uma vez...
mais um peito que sangra sem dor.

Um jeito mais inteligente de pedir as contas
sumir... morrer de vez em quando.

Curtir o fim do túnel,
a luz que espera o amanhã.


Lee Flôres Pires

Quinta-feira, Maio 14, 2009

Coisa tua

assim que vi você
logo vi que ia dar coisa
coisa feita pra durar,
batendo duro no peito
até eu acabar virando
alguma coisa
parecida com você
parecia ter saído
de alguma lembrança antiga
que eu nunca tinha vivido,
mas ia viver um dia
alguma coisa perdida
que eu nunca tinha tido
alguma voz amiga
esquecida no meu ouvido
agora não tem mais jeito,
carrego você no peito
poema na camiseta
com a tua assinatura
já nem sei se é você mesmo
ou se sou eu que virei alguma coisa
tua.


(Alice Ruiz)

Quarta-feira, Abril 29, 2009

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina. Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


(Carlos Drummond de Andrade)

Quinta-feira, Abril 16, 2009

Navio ao vento (vinho, cais e flor)

a Alice Ruiz


Sai...
deixandos ondas
e fumaça no céu da baía.
E meu coração
sinestesiado de lembranças
pulsa a cada novo porto
a cada nova promessa de redenção.

... e a quem fica no cais
desculpe-me pelas letras que descem
pela mão que acena
pelo fim da sessão.
Desculpe-me por meu leme à deriva
minha rota de colisão.
Desculpe-me por ser flor
de pétalas ao vento
num filme sem cor.
Desculpe-me por ser vinho seco
de uvas vermelhas
que escorrem pela boca
sem sabor.

Desculpe-me.

Desculpe-me por aquele beijo
corpo, alma e mente
que esqueci completamente.
É que esta vida
de tela de cinema,
vinho, cais e flor,
navio ao vento,
moda retrô,
nos deixa assim...
desumanos.


Lee Flôres Pires

Quarta-feira, Abril 08, 2009

Integrações

Depois de tudo te amarei
Como se fosse sempre antes
Como se de tanto esperar
Sem que te visses nem chegasses
Estivesses eternamente
Respirando perto de mim.

Perto de mim com teus hábitos,
Teu colorido e tua guitarra
Como estão juntos os países
Nas lições escolares
E duas comarcas se confundem
E há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.

Perto de ti é perto de mim
E longe de tudo é tua ausência
E é cor de argila a lua
Na noite do terremoto
Quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
Pode marchar com quatro pés
E quatro lábios, a ternura.

Porque sem sair do presente
Que é um anel delicado
Tocamos a areia de ontem
E no mar ensina o amor
Um arrebatamento repetido.


(Pablo Neruda - Coração Amarelo)

Quinta-feira, Abril 02, 2009

O transe e a transa

Rende-se na cama
e ama
a lua crescente
a boca e a serpente.

Clama
a lua
e a dança
o transe e a transa...
passado, futuro,
presente:

- Vem! Me bebe!
Sede afogada.
Na beira da manhã
(cortina fechada)
mora o gozo
da bruxa
de loucas entranhas.


Lee Flôres Pires